Engasgo em crianças: você saberia o que fazer nos primeiros segundos?

Um engasgo pode acontecer em poucos segundos — e saber reconhecer os sinais e agir corretamente pode salvar uma vida. Entenda o que fazer em bebês e crianças, quais erros devem ser evitados e por que o treinamento prático é essencial para professores, cuidadores e familiares.

8/17/20267 min read

Engasgo em crianças: você saberia o que fazer nos primeiros segundos?

Durante os treinamentos de primeiros socorros, eu sempre faço uma pergunta simples:

“Se uma criança engasgasse agora, você saberia identificar e agir?”

Algumas pessoas levantam a mão. Outras ficam em silêncio. E esse silêncio não significa falta de interesse ou de cuidado. Na maioria das vezes, ele revela algo muito comum: as pessoas querem ajudar, mas têm medo de fazer alguma coisa errada.

O problema é que, em uma situação de engasgo, não existe muito tempo para pesquisar um vídeo ou tentar lembrar de uma orientação vista nas redes sociais. É preciso reconhecer rapidamente o que está acontecendo, pedir ajuda e aplicar a técnica adequada para cada faixa etária.

E aqui está um ponto fundamental: o atendimento de um bebê com menos de 1 ano é diferente do atendimento de uma criança maior de 1 ano.

Nem toda tosse significa obstrução total

Antes de qualquer manobra, precisamos observar a criança.

Quando ela ainda consegue tossir com força, respirar, chorar ou emitir algum som, provavelmente existe passagem de ar. Nesse caso, devemos permitir que continue tossindo, observando atentamente se a situação melhora ou piora.

Não é indicado iniciar imediatamente as manobras de desengasgo em uma criança que apresenta tosse forte e eficaz.

A situação se torna grave quando a criança:

  • Não consegue falar ou chorar;

  • Não consegue respirar adequadamente;

  • Apresenta tosse fraca ou silenciosa;

  • Leva as mãos ao pescoço;

  • Começa a ficar arroxeada;

  • Demonstra confusão, fraqueza ou perda de consciência.

Nesses casos, estamos diante de uma obstrução grave das vias aéreas e a intervenção deve ser imediata.

O que mudou nas recomendações mais recentes?

As diretrizes de 2025 da American Heart Association trouxeram uma atualização importante para o atendimento de crianças maiores de 1 ano e adultos conscientes.

Anteriormente, muitas capacitações ensinavam a realização direta das compressões abdominais. A recomendação atual é iniciar ciclos alternados de:

5 golpes dorsais, seguidos de 5 compressões abdominais.

Essa sequência deve ser repetida até que o objeto seja expelido ou a pessoa se torne inconsciente.

Para os bebês menores de 1 ano, permanece a diferença fundamental: são realizados 5 golpes dorsais e 5 compressões torácicas. Compressões abdominais não devem ser feitas em bebês, devido ao risco de lesão dos órgãos internos.

Essas atualizações mostram por que a reciclagem periódica é tão importante. Os protocolos evoluem, e quem fez um treinamento há alguns anos pode estar utilizando uma sequência que já foi atualizada. As recomendações atuais podem ser consultadas nas diretrizes pediátricas de suporte básico de vida da American Heart Association.

Bebê com menos de 1 ano: como agir?

Quando um bebê apresenta sinais de obstrução grave, a sequência recomendada é:

1. Posicionar o bebê com segurança

Apoie o bebê de barriga para baixo sobre o antebraço ou a coxa, sustentando cuidadosamente a cabeça e a mandíbula. A cabeça deve permanecer em uma posição mais baixa que o tórax.

Tenha atenção para não pressionar os tecidos da garganta.

2. Realizar 5 golpes dorsais

Com a base da mão, aplique cinco golpes firmes entre as escápulas, na região central das costas.

Após cada golpe, observe se o objeto foi expelido.

3. Realizar 5 compressões torácicas

Vire o bebê cuidadosamente de barriga para cima, mantendo a cabeça mais baixa que o tronco.

Realize cinco compressões no centro do tórax, sobre a metade inferior do esterno. Nas recomendações mais recentes, a técnica utiliza a base de uma das mãos para produzir as compressões torácicas no bebê.

4. Repetir os ciclos

Alterne:

5 golpes dorsais + 5 compressões torácicas

Continue até que o objeto seja eliminado ou até que o bebê se torne inconsciente.

A American Heart Association reforça que não devem ser realizadas compressões abdominais em bebês menores de 1 ano. Consulte o algoritmo oficial para obstrução das vias aéreas em bebês.

Criança maior de 1 ano: o que fazer?

Para uma criança a partir de aproximadamente 1 ano, com obstrução grave e ainda consciente, a sequência atualizada é:

1. Pedir ajuda

Solicite que alguém acione imediatamente o serviço de emergência. Se houver outra pessoa no local, ela pode fazer a ligação enquanto o atendimento é iniciado.

2. Aplicar 5 golpes dorsais

Posicione-se atrás e ligeiramente ao lado da criança. Incline-a para frente e aplique cinco golpes firmes entre as escápulas, utilizando a base da mão.

3. Realizar 5 compressões abdominais

Posicione-se atrás da criança, envolvendo seu abdômen com os braços.

Feche uma das mãos e coloque-a acima do umbigo e abaixo do final do osso do peito. Segure o punho com a outra mão e realize compressões rápidas, direcionadas para dentro e para cima.

4. Alternar as manobras

Repita a sequência:

5 golpes dorsais + 5 compressões abdominais

Continue até que o objeto seja expelido ou até que a criança se torne inconsciente.

Essa alternância entre golpes dorsais e compressões abdominais é uma das principais atualizações das diretrizes de 2025 para crianças maiores de 1 ano. Veja o algoritmo oficial da American Heart Association.

E se a criança ficar inconsciente?

Se o bebê ou a criança perder a consciência:

  1. Coloque-o cuidadosamente sobre uma superfície firme e plana;

  2. Solicite o acionamento do serviço de emergência e um DEA, se disponível;

  3. Inicie a ressuscitação cardiopulmonar, começando pelas compressões;

  4. Ao abrir a boca para realizar as ventilações, retire o objeto apenas se ele estiver claramente visível;

  5. Continue seguindo as orientações do serviço de emergência até a chegada do atendimento especializado.

Não faça uma varredura às cegas com os dedos dentro da boca. Essa tentativa pode empurrar o objeto ainda mais para o interior das vias aéreas. As diretrizes atuais consideram essa conduta potencialmente prejudicial.

O que nunca fazer durante um engasgo?

Alguns erros podem agravar a situação:

  • Não oferecer água ou qualquer outro líquido;

  • Não tentar retirar o objeto sem conseguir visualizá-lo;

  • Não introduzir os dedos às cegas na boca;

  • Não sacudir a criança;

  • Não segurar o bebê pelos pés;

  • Não realizar compressões abdominais em menores de 1 ano;

  • Não abandonar uma criança que ainda esteja tossindo e respirando;

  • Não demorar para acionar o serviço de emergência diante de uma obstrução grave.

Também devemos ter cuidado com dispositivos de sucção vendidos como solução para engasgos. Até o momento, as evidências disponíveis não são suficientes para demonstrar que esses equipamentos sejam superiores ou substituam as técnicas convencionais recomendadas.

Prevenção também faz parte dos primeiros socorros

Ensinar a agir é fundamental, mas prevenir continua sendo a primeira medida.

Alguns alimentos e objetos apresentam maior risco para crianças pequenas, como:

  • Uvas inteiras;

  • Pedaços grandes de salsicha;

  • Castanhas e amendoins;

  • Pipoca;

  • Balas duras;

  • Balões de borracha;

  • Brinquedos e objetos pequenos.

Nas escolas e em casa, a criança deve permanecer sentada durante a alimentação, com supervisão adequada e alimentos preparados de acordo com sua idade.

Assistir a um vídeo não substitui o treinamento prático

Um artigo pode ajudar a compreender a sequência. Um vídeo pode facilitar a visualização. Mas é durante a prática que surgem as dúvidas:

Onde posicionar a mão? Qual força aplicar? Como sustentar o bebê? Como identificar se a tosse ainda é eficaz? O que fazer quando a criança perde a consciência?

Nos treinamentos que realizo, gosto de unir explicação, demonstração e prática. Os participantes utilizam manequins, simulam situações reais, corrigem o posicionamento das mãos e aprendem a trabalhar em equipe.

É nesse momento que o conhecimento deixa de ser apenas uma informação e começa a se transformar em preparo.

A importância da capacitação nas escolas

A Lei nº 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, determina a capacitação em noções básicas de primeiros socorros de professores e funcionários de estabelecimentos públicos e privados de educação básica e de recreação infantil.

Mais do que atender a uma exigência legal, capacitar uma equipe significa preparar pessoas que convivem diariamente com crianças e que poderão estar presentes nos primeiros segundos de uma emergência.

A própria lei estabelece que o conteúdo deve considerar a natureza e a faixa etária do público atendido pela instituição. Consulte o texto integral da Lei Lucas.

Perguntas frequentes

Se a criança estiver tossindo, devo bater nas costas?

Se ela apresenta tosse forte, respira e consegue emitir sons, incentive a tosse e observe. As manobras são indicadas quando existem sinais de obstrução grave, como incapacidade de falar, chorar, respirar ou tossir de maneira eficaz.

Posso realizar compressões abdominais em um bebê?

Não. Em bebês menores de 1 ano, a sequência é composta por cinco golpes dorsais e cinco compressões torácicas.

Para crianças maiores de 1 ano, começo pela compressão abdominal?

Pelas recomendações atualizadas de 2025, o atendimento começa com cinco golpes dorsais, seguidos de cinco compressões abdominais.

Quando devo chamar o serviço de emergência?

Diante de sinais de obstrução grave, o acionamento deve ser realizado imediatamente, sem atrasar o início das manobras.

Conhecimento precisa virar ação

O engasgo acontece de maneira rápida e inesperada. Mas uma equipe preparada consegue reconhecer os sinais, organizar o atendimento e agir com mais segurança até a chegada do suporte especializado.

A SINAPSE realiza treinamentos de primeiros socorros e Lei Lucas para escolas, empresas e equipes em diferentes regiões do Brasil. Nosso trabalho é desenvolvido com linguagem simples, atualização técnica, demonstrações e simulações práticas, sempre respeitando a realidade de cada instituição.

Porque, quando cada segundo importa, estar preparado faz toda a diferença.

Prof. Alberto Souza
Fisioterapeuta – CREFITO-2/73402-F
Biólogo, professor e instrutor de primeiros socorros
SINAPSE – Saúde e Desenvolvimento